Leandro Maya

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Wealth & InvestingFebruary 3, 202610 min de leitura

Por que Chamo de Dividendo do Cidadão, Não Renda Básica Universal

A Renda Básica Universal é a política certa pelos motivos errados. O enquadramento importa — e "dividendo" captura algo essencial que "renda" obscurece: esse dinheiro é devido, não dado.

LM

Leandro Maya

Director at Circle, author of The Age of Abundance

As palavras importam nos debates sobre políticas públicas. As palavras que escolhemos para descrever uma ideia moldam como as pessoas a avaliam, quem elas acham que deve recebê-la e se acham que é justificada ou meramente caridosa.

Renda Básica Universal — RBU — está ganhando força à medida que a automação acelera. A política em si é direta: dar a todos os cidadãos adultos um pagamento regular em dinheiro, incondicionalmente, suficiente para cobrir as necessidades básicas. Os argumentos a favor são convincentes. Mas o enquadramento está errado. E esse enquadramento errado vai limitar a viabilidade política da política e obscurecer sua justificativa mais importante.

Prefiro o Dividendo do Cidadão. Eis por que a distinção importa.

O Problema com "Renda"

Renda, no uso econômico padrão, é compensação por atividade produtiva. Você trabalha, é pago. A palavra carrega uma suposição embutida: o receptor contribuiu com algo para recebê-la.

Essa é precisamente a suposição que os opositores da renda básica universal atacam. "Por que as pessoas deveriam ser pagas por não fazer nada?" é a objeção intuitiva, e tem poder político real. Ressoa com valores profundamente arraigados sobre trabalho, responsabilidade e mérito. Quando se chama a política de "renda básica", está-se constantemente lutando contra esse enquadramento.

O enquadramento implica que os receptores estão recebendo algo de graça — que estão recebendo renda sem ganhá-la. Isso não é apenas politicamente fraco. É também analiticamente errado.

O que um Dividendo Realmente É

Um dividendo não é um presente. É um retorno sobre propriedade.

Quando uma empresa gera lucros, os acionistas recebem dividendos porque possuem participação na empresa. O dividendo não é caridade. Não é uma escolha política feita pela empresa para ser generosa. É um retorno que o proprietário tem direito de receber por causa do que possui.

Agora considere a questão: quem possui a capacidade produtiva de uma economia automatizada?

Os robôs, os sistemas de IA, as cadeias de suprimentos automatizadas — não foram construídos no vácuo. Dependem de pesquisa financiada publicamente (a internet, o GPS, as telas sensíveis ao toque — todos projetos governamentais), sistemas jurídicos que protegem a propriedade intelectual, infraestrutura física construída a expensas públicas, instituições educacionais que formaram os engenheiros que construíram os sistemas, e gerações de conhecimento científico acumulado que está disponível gratuitamente porque pesquisadores anteriores publicaram em vez de patentear.

A automação é construída sobre uma base de investimento coletivo. Os cidadãos, como membros da sociedade que criou e mantém essa base, têm uma reivindicação de propriedade legítima sobre uma parte dos retornos que ela gera. Um Dividendo do Cidadão não é um pagamento assistencial. É um retorno sobre essa participação de propriedade coletiva.

O Modelo do Alasca

Isso não é um framework hipotético. É um operacional.

O Alasca administra um Dividendo do Fundo Permanente desde 1982. O estado coleta royalties da extração de petróleo — recursos que pertencem coletivamente aos cidadãos do Alasca — e distribui uma parte como dividendo anual para cada residente. Em 2023, esse pagamento foi de aproximadamente US$ 1.300 por pessoa.

O Fundo Permanente do Alasca é politicamente popular entre os partidos porque tanto conservadores quanto progressistas entendem a lógica subjacente: os cidadãos possuem os recursos naturais, e o dividendo é o retorno sobre essa propriedade. Não há debate sobre se os receptores "merecem" o dinheiro. Claro que sim — eles possuem o ativo.

A economia da automação cria uma situação análoga. A capacidade produtiva da IA e da robótica é, em um sentido significativo, uma herança comum. Foi construída sobre fundações coletivas. Um Dividendo do Cidadão distribuiria uma parte dos retornos sobre essa base de ativos coletiva para aqueles que a possuem coletivamente.

Fundos Soberanos de Riqueza em IA

O mecanismo que acho mais convincente para operacionalizar o Dividendo do Cidadão é o Fundo Soberano de Riqueza em IA — um veículo de investimento público que detém participações acionárias em empresas altamente automatizadas e distribui os retornos como dividendos.

A lógica é direta. À medida que a automação aumenta, a parcela do trabalho na renda corporativa cai e a parcela do capital sobe. Se os cidadãos coletivamente detêm participações nas empresas que impulsionam essa mudança, participam dos retornos crescentes do capital em vez de serem deslocados por eles. O fundo captura uma parte dos ganhos de produtividade e os distribui amplamente.

O Fundo de Pensão Global do Governo da Noruega é a prova de conceito em escala — um fundo soberano que gerencia mais de um trilhão de dólares em ativos e gerou retornos substanciais que beneficiam todos os cidadãos noruegueses. O fundo norueguês foi capitalizado com receitas do petróleo; um Fundo de Riqueza em IA poderia ser capitalizado através de um imposto sobre o trabalho automatizado ou de um requisito de que empresas altamente automatizadas emitam participações acionárias para um fundo público.

Por que o Enquadramento é Estratégia Política, Não Semântica

Quero ser direto sobre por que enfatizo essa distinção. Não é pedantismo.

A coalizão política necessária para implementar o Dividendo do Cidadão é mais ampla do que a que poderia aprovar a RBU. O enquadramento da RBU atrai pessoas que já são simpáticas à redistribuição e aliena aquelas que não são. O enquadramento do Dividendo do Cidadão pode atrair conservadores que acreditam nos direitos de propriedade, libertários que acreditam em devolver os ganhos inesperados habilitados pelo governo à sua fonte, e progressistas que querem garantir que os benefícios da automação sejam amplamente compartilhados.

Enquadrá-lo como um dividendo — como retorno sobre a propriedade coletiva — reformula a questão política de "quanto tiramos dos produtivos para dar aos improdutivos?" para "como os cidadãos recebem sua parte justa dos retornos sobre os ativos que possuem coletivamente?" Essas são conversas muito diferentes, e a segunda é muito mais vencível.

A economia da abundância gerará prosperidade extraordinária. A questão é a distribuição. Acertar o enquadramento é o primeiro passo.

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LM

Sobre Leandro Maya

Leandro Maya é executivo financeiro e autor que explora a interseção entre automação, tecnologia e potencial humano. Diretor na Circle Internet Financial, ex-Apple e ex-Meta.

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